Combate aos acidentes e doenças ocupacionais no setor de bebidas é tema de encontro nacional

Entidade representante dos 144 mil trabalhadores do setor no Brasil afirma que lucros durante a Copa não serão obtidos à custa da saúde dos profissionais do setor. Campanha nacional foi lançada em São Paulo na última quinta

 A Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação e Afins (CNTA Afins) lançou na última quinta (20/2), a Campanha Nacional de Combate aos Acidentes de Trabalho e Doenças Ocupacionais no Setor de Bebidas e a pesquisa Perfil dos Trabalhadores das Indústrias de Bebidas do Brasil. Na ocasião, cerca de 50 dirigentes de federações e sindicatos de trabalhadores do setor registraram denúncias e discutiram alternativas para prevenção e combate aos acidentes e doenças no ambiente de trabalho. A elaboração de uma norma regulamentadora específica para o setor foi uma das principais reivindicações dos trabalhadores, que serão encaminhadas para as empresas nos próximos dias. Entre 2010 e 2012, foram registrados 16.848 acidentes no setor, com 42 mortes no mesmo período.

Segundo os participantes do encontro, realizado em São Paulo, empresas como a Ambev (presente em 13 países e dona das marcas Antarctica, Bohemia, Brahma, Skol, Gatorade, Guaraná Antarctica, Pepsi, Sukita, entre outras) e Femsa (presente em 9 países e dona das marcas Coca-Cola, Fanta, Sprite, Nestea, Powerade, entre outras), têm desrespeitado direitos básicos do trabalhador e contribuído com a incidência de acidentes e doenças ocupacionais por falta de prevenção e más condições de trabalho. Algumas das principais reclamações registradas por dirigentes de todo o país foram o excesso de jornada de trabalho, exposição dos trabalhadores a poeiras e agentes químicos, falta de pagamento de horas extras e grande incidência de lesões por esforço repetitivo e assédio moral. Entre a maioria das queixas relacionadas aos acidentes de trabalho estão situações que envolvem cortes, quedas, queimaduras, intoxicação, esmagamentos e traumas psicológicos.

De acordo com o presidente da CNTA Afins, Artur Bueno de Camargo, manifestações, paralisações e até mesmo uma campanha nacional e internacional de boicote às empresas que não tomarem providências em relação à prevenção e à redução aos acidentes de trabalho não estão descartadas pelos trabalhadores. A entidade irá oficializar as preocupações da categoria junto ao governo e às empresas (através da Confederação Nacional da Indústria) na tentativa de discutir a possibilidade de criação de uma norma regulamentadora específica para o setor e também intensificar as fiscalizações nos Estados e municípios. Trabalhadores também aprofundarão a discussão do tema no Judiciário e junto às entidades de trabalhadores de outros países, com o propósito de criar uma organização internacional focada para trabalhos conjuntos no setor para atuar com a coordenação da União Internacional dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação (UITA).

“Até junho pretendemos estar com todo esse processo em funcionamento. E, por outro lado, se não houver nenhuma receptividade por parte dos empresários e do governo, nós poderemos buscar outros caminhos, como, por exemplo, o boicote ao produto das empresas que não apresentarem vontade de buscar soluções na prevenção de acidentes e doenças. Também poderemos fazer um movimento de paralisação nacional do setor de bebidas. Esperamos que não seja necessário buscarmos esse caminho e esperamos também que tanto os empresários quanto o governo tenham bom senso e nos atendam para buscarmos alternativas.”, defende Bueno.

Números alarmantes

O Brasil possui atualmente 144 mil trabalhadores no setor de bebidas, sendo São Paulo o principal Estado em número de trabalhadores, com 33 mil; seguido por Rio de Janeiro (15 mil) e Pernambuco (11 mil). A exemplo do trabalho realizado pela CNTA Afins no setor frigorífico, entre 2004 e 2014, que resultou na recente conquista da Norma Regulamentadora n° 36 (NR36/2013), a entidade quer discutir melhorias para o setor de bebidas e combater o alto número de acidentes de trabalho e doenças ocupacionais.

De acordo com dados do Ministério da Previdência Social (MPAS), entre 2010 e 2012, foram registrados 16.848 acidentes no setor, com 42 mortes no mesmo período. Já o número de auxílios-doença acidentários concedidos entre 2010 e 2012 foi de 928. Só em 2013, entre janeiro e outubro, 316 trabalhadores do setor receberam o benefício.

Apesar da redução do número de acidentes e de óbitos no setor, a média anual ainda é considerada alarmante pela CNTA Afins. Em 2010, 6.144 acidentes foram registrados (com 17 mortes). Em 2011, esse número foi de 5.634 acidentes (e 14 mortes), contra 5.070 acidentes e 11 mortes em 2012. A maioria dos acidentes são registrados durante a fabricação de refrigerantes e de cervejas.

Impactos

Para Artur Bueno de Camargo, as pressões e cobranças pelo cumprimento de metas devem aumentar durante a Copa do Mundo, principalmente por empresas patrocinadoras do torneio mundial, como a Ambev, que representa cerca de 32 mil trabalhadores brasileiros no setor.

“Não podemos mais tolerar acidentes e a meta tem que ser zero. Não importa se a empresa tenha um ou 3 mil trabalhadores. O acidente de trabalho não interessa a ninguém. E para o governo e a sociedade muito menos porque a partir do momento em que um trabalhador se afasta por acidente, doença ou invalidez, quem vai pagar a conta é a sociedade.”, avalia o presidente da CNTA Afins.